A menininha

Quem conta: andréamuniz
Conta mais: sobre colorir mais o momento, antes que vire memória.

Entre os anos de 1996 e 1998, fui voluntária na Capelania do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo capital. Em alguns dias da semana eu ia fazer companhia às crianças HIV+ e dar um apoio aos seus familiares. O apoio era ouví-los, sentar com cada um e dar o ombro para o choro e, muitas vezes, desespero. Com outras pessoas do grupo contávamos histórias da Bíblia infantil, cantávamos, fazíamos teatro com bonecos ou fantasiados no corredor do hospital, que naquele momento deixava de ser um lugar sem vida e passava a ter cores e gargalhadas.

Um dia em especial conheci uma menininha que já estava muito doente e sozinha naquele enorme hospital. Tinha 5 anos de idade e estava entre idas e vindas de casa pro hospital. Ela falava bastante e amava as histórias. Num certo dia, confesso que estava mais sensível a tudo que vi, eram muitas crianças infectadas. Claro que o problema nunca era o preconceito, mas o medo passava rapidamente pela cabeça, e a gente acaba se perguntando “E se?”.

Mas contei histórias, ouvi, abracei. Quando fiquei sozinha com aquela menininha, ela estava com um pacote de batata frita e pediu que eu sentasse ao seu lado para comermos juntas. Pensei se poderia passar essa etapa e segui as regras de hospital. Porém, não tive dúvidas do que eu tinha que fazer: meu propósito era ser sua amiga, companhia daquela solidão que sentia mesmo sendo uma criança. Sentei, abracei e juntas comemos.

Faz tanto tempo, mas eu nunca vou me esquecer daquele rostinho. Só me arrependo de não ter tido mais tempo com ela, porque alguns dias depois ela se foi. Mas, antes, ela me pediu para contar uma história sobre o céu. Eu tive a certeza que eu pude, mesmo com uma criança, dar um momento de paz a tantas dores de seu corpo e, porque não, do seu coração também.

Eu amo essa história e amo cada momento vivido naquele hospital naqueles anos. Aquela menininha e tantas outras crianças me ensinaram que a vida nem sempre é colorida por nós mesmos, mas que algumas vezes podemos deixar outras pessoas colorirem e nos ajudarem em momentos que achamos que tudo está acabado.

2 replies to “A menininha

    1. Andréa, justo agora estava te escrevendo para agradecer essa relíquia e contar que ia postar hoje! estou muito emocionada com essa história e sei que não serei a única <3 logo mais entra no insta! Muito obrigada à você por tanto!!!

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