Páscoa

Quem conta: mariahelenaalvim
Conta mais: nas nuvens, podemos ser arco-íris.

Esses dias lembramos muito da nossa Elzinha. Ela amava a Páscoa e, um mês antes, começava a nos perguntar como queríamos nossos ovos. Ela mesma fazia e, a possibilidade de personalizar cada ovo com o desejo de cada um era a sua maravilha. Lembro de ter pedido ovos de duas cores, recheados com outros ovos, ou que tivessem dentro só os meus chocolates preferidos. Hoje seria o dia de receber exatamente o que tínhamos pedido.⁣

Penso nisso passando em frente à casa de doces que está aberta em meia porta justo para atender ao desejo de ovos de Páscoa. Um senhor grisalho se aproxima e pergunta se estão atendendo só por delivery. É errado ele estar ali. Mas faz falta a alegria dos que recebem chocolate.⁣

Escolho um mercado na outra ponta da Paulista pra andar um pouco. Vou pelo sol, onde tem menos gente. Faço como todo mundo: crio uma distância de segurança entre qualquer pessoa que encontre pela rua.⁣

Fico ainda um minuto na frente do mercado para avaliar se vale a pena entrar ou não. Vejo quanta gente tem. Se estão respeitando as distâncias. Mas o mercado está vazio. Posso entrar, pegar minhas coisas e ir embora. ⁣

O sol aperta e resolvo voltar pela Alameda Santos, onde tem mais sombra. Na esquina com a Padre João Manuel vejo uma senhora, de máscara, pele negra e cabelinhos brancos, vendendo Menthos. O coração aperta. Não uso dinheiro já faz um mês. Digo isso a ela.
– Tudo bem, minha filha.

Ando mais uns 50 metros pensando que só a extrema necessidade leva uma senhora daquela idade a vir pra rua de máscara vender bala. Tento dizer pra mim mesma que infelizmente é assim durante esses dias. Mas não me conformo.⁣ Volto.
⁣- Não tenho dinheiro, mas tenho feijão, a senhora aceita?
– Aceito! — os olhinhos brilham por trás da máscara.
– E um guaraná?
– Opa!

Dou também umas bisnaguinhas e uns palitinhos de chocolate.
– Mas, minha filha, não vai lhe faltar?
– De jeito nenhum — mas me enternece a preocupação e lamento não ter coisas mais nutritivas.
Ela agradece e se põe a guardar seus chocolates.
– Feliz Páscoa! — me diz.

Feliz Páscoa, sem dúvida. Olhos brilhando, recheio de guaraná, feijão e bisnaguinhas. Esse era o ovo que eu queria, Elzinha.⁣

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