Dona Conceição

Quem conta: tainahcosta
Conta mais: nem tudo precisa ser dito, basta um sorriso.

Há uns anos fui atrás de fazer algo para uma comunidade quase desconhecida, mas muito necessitada. Pedi ao meu irmão que me levasse a um bairro muito pobre, em que o colega de trabalho dele morava. O local tinha sido um antigo lixão, mas nos tempos atuais abriga(va) diversas cooperativas de lixo recicláveis – que não deixa de ser lixo, que não deixa de trazer algumas coisas ruins, como sujeira, odores, urubus.

Fui fotografar o local para um concurso que premiaria a comunidade retratada e não o fotógrafo e, tratando-se de um concurso de uma comitiva inglesa, tinha certeza que aquela realidade os tocaria de forma única. Foram dois dias de fotografia, com direito ao meu irmão tomar enquadro da polícia dentro da favela e revistarem minha mochila. A realidade bateu na nossa cara.

As casas eram construídas em cima de restos de tudo. Os caminhos eram formados por montes de azulejos quebrados, por cima de blocos de terra que pareciam poder afundar a qualquer momento, já que o bairro é permeado por algum rio muito poluído (e com cheiro de botar inveja ao Tietê).

No segundo dia de visita, logo depois do enquadro e do sentimento de frustração de ser suspeito só por estar em uma favela, encontro uma senhora sorridente, que cuidava de duas crianças. Aquela era dona Conceição, que mora em uma casa de um cômodo, que era sala-quarto e cozinha. Não consegui entender metade das palavras dela em nosso primeiro encontro, sua voz calma e baixa, acompanhada de um sotaque carregado, não foram suficientes para quebrar a minha timidez e pedir que repetisse. Mas foram suficientes para eu fazer algo que nunca consigo: pedir um retrato.

Aí, veio a surpresa: ela não sabia o que era fotografia, ou pelo menos não entendia como funciona aquele troço que eu carregava no pescoço. Expliquei, ela riu por não acreditar que era possível, mostrei a foto da casa dela, das crianças, dos vários cachorros dela, mas o pedido do retrato foi negado. Não insisti e continuamos a conversa por breves minutos, quando me despedi e segui meu caminho.

A comitiva inglesa nao se compadeceu tanto e a comunidade não foi contemplada daquela vez.

Três anos depois, uma pessoa que trabalha numa ONG local me convidou para participar de uma ação em Sambaiatuba. Já me sentindo em casa, aceitei o convite na hora e retornei às vielas. No primeiro barraco que paramos, reencontro dona Conceição, sentada na porta, na mesma posição que encontrei-a 3 anos atras. Sorri por dentro.

Os outros a convidavam para subir e participar da ação social. Eu empunhei a câmera, mas não conseguia fotografar, ainda precisava da permissão dela.

Foi quando ela me olhou e arrumou o cabelo. Entendi que aquilo era um sim e cliquei. Ela riu da mesma forma de 3 anos atrás, quando expliquei o que era fotografia. Mostrei como ela estava bonita e ganhei mais um sorriso, ela estava feliz que o gato saíra na foto também.

No meio de tanto lixo, tanta falta de cuidado, tanta coisa negativa, bastou um sorriso para alguém me mostrar que, mesmo em meio a tanta coisa difícil, a alegria pode estar presente. Sempre.

*A Tainah tem um projeto lindo, não deixe de visitar o Elementar Cotidiano. <3

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