A Senhora que Varria Folhas

Quem conta: thaleslima
Conta mais: sobre ser e ver como humanos.

Fui acordado pelo motorista, era aproximadamente 07:00 da manhã de um domingo. No dia anterior, tinha ido em uma festa na cidade vizinha, de van. Estava empolgado pelo começo das férias, bebi mais do que podia/aguentava e desmaiei assim que deitei no banco para voltar para casa, às 05h30 da manhã, aproximadamente.

Acordei apenas com os empurrões no ombro e os avisos de que era o ponto final, em um estacionamento deserto, no meio do nada. Um pouco bêbado ainda, comecei a andar pelo bairro procurando o caminho de casa. Percebi – depois de muito andar – que estava em um bairro extremamente distante do meu e que nunca chegaria em casa andando (não nas condições que eu estava).

Procurei então a casa de uma amiga que morava por ali mesmo. Andei por dezenas de minutos e não achei nada. O dia se formava, as pessoas começavam a transitar pela rua, olhares tortos e risos me atravessavam, e eu comecei a ficar apavorado. Olhei no bolso e não tinha dinheiro para o ônibus. Olhei o celular e ele estava descarregado. Olhei pra mim e vi que estava ferrado, que minha mãe certamente estaria em casa preocupada.

Deixei o orgulho de lado e comecei a pedir dinheiro para o ônibus, porém sem sucesso. As pessoas olhavam para minha roupa (eu estava de vestido, colar, calça e bota) nada masculina – de acordo com os padrões – e me desprezavam. Me senti mal por isso, mas na realidade, acostumado. Já não bastasse a ressaca, o cansaço, a falta de dinheiro etc, eu ainda precisava lidar com o preconceito de todo dia. Mas, voltando ao foco: dentre as inúmeras pessoas que me viraram a cara, parei uma senhorinha que varria a calçada e contei minha situação. Perguntei se ela poderia me dar um copo d’água para continuar a caminhada, pois ainda faltava MUITO.

Ela perguntou onde eu moro, como me chamo, como chama minha mãe e meu pai (típico de cidade pequena), mas não me reconheceu. Então, mandou eu esperar ali e foi dentro de sua casa, pegou uns trocados e me deu para pagar o ônibus. Contei o dinheiro e percebi que era mais do que precisava, então fui entregar-lhe o resto. Para minha surpresa, a resposta dela foi:
– Você precisa mais que eu! Passa naquela padaria ali, é ótima. Toma um café e volta pra sua mãe, ela deve estar desesperada.

Eu agradeci, dei um abraço, um bom dia e fui para casa. Minha mãe estava na porta me esperando, realmente preocupada e quase chamando um resgate (mentira, não chegou a tanto).

Queria deixar – e acho que minha mãe também – meu agradecimento à esta mulher gentil que, diferente das dezenas de pessoas que me desprezaram, teve esse olhar humano para comigo. O mundo precisa de mais pessoas assim.

Pretendo voltar e ajudar a varrer as folhas, tomar um café e dar um bom dia com um hálito melhor. Gratidão!

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