Dona Totoca

Quem conta: raissadalat
Conta mais: sobre encontros que fazem viajar no tempo

Segunda-feira, 21h30, acabava mais um plantão no CTI do hospital e, na correria para conseguir alcançar o último ônibus do dia, ouço passos ainda mais acelerados atrás de mim.
– Bem que eles podiam ter asfaltado até aqui – aponta para o chão – para ajudar quem já andou demais nessa vida, né, minha filha?
Respondi sorrindo:
– É.
– Eu sempre caminho. O médico disse que eu vou morrer se eu não fizer isso todo dia. Estou indo visitar minha irmã lá na Afonso Pena.
– Mas isso é um pouco longe, Dona Rosa, acho que ainda conseguimos alcançar a lotação.
O ônibus passa acelerado ao nosso lado. Eu disse:
– Posso te acompanhar? Acho que temos um caminho longo pela frente.
– É mesmo?
Confirma com a cabeça e um sorriso largo de alguns dentes.

Quando percebo, nossos passos já estavam sincronizados e, de repente, as casas, as pessoas, as ruas estavam no tempo de Dona Rosa. Pude vê-la chegando em Viçosa com 5 filhos nos braços, em busca de um recomeço. Abandonara o jogo do bicho em São Paulo, depois que o marido faleceu por motivos de saúde.

Vi Dona Rosa jogando bingo com suas amigas do bairro. O dono do bar que a acolheu em uma noite de chuva. O mesmo que vestia as roupas que os pais dela faziam para vestir toda aquela comunidade.

Vi os passos de Dona Rosa mais rápidos e fortes. Ela estava trinta anos mais nova e não tinha problema de saúde. Gostava de andar bastante. Fosse no Brasil, nos pesos da Argentina com as irmãs ou na cidade do Divino Pai Eterno. Dona Rosa ainda andaria muito nessa vida e resolveu me fazer de companhia nessa noite não mais pacata de segunda feira.

Chegamos ao final do nosso percurso e já podia ver ressurgir as rugas no seu rosto, ainda que seu sorriso fosse o mesmo.

– Aceita escalar esse morro com essa velha senhora ou prefere o caminho mais fácil?
– Ah, Dona Rosa, a senhora não parece escolher o mais fácil nunca e nem eu.
Subimos o morro, claro. Ainda deu tempo dela me contar mais uma história até nos despedirmos.
– Obrigada pela companhia, …?
– Raissa! Dona…?
– Pode me chamar de Totoca. É esse meu nome. Obrigada por esta caminhada. Que Deus te abençoe.

Dona Totoca com cheiro de rosa fez mais feliz a minha noite, com cara de vida.
– Tchau!

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