As Pontas

Quem conta: mariahelenaalvim
Conta mais: quando as pontas se conectam.

Desço à noite para ir ao mercado. No caminho, entre o orelhão e a loja de roupas está uma moradora de rua. Eu a conheço. Ela vive na Paulista, muitas vezes parada na mesma posição durante horas.

Tenho muita pena, mas me sinto sempre muito impotente. O que faço é comprar comida e deixar com ela quando posso. Na volta do mercado, compro esfihas e incluo um kibe para a minha conhecida. Passo por ela, estendo o saquinho. Ela não liga para a comida. – Pra você. Tá quente ainda.
Ela recebe o saquinho, apoia de qualquer jeito em cima das suas coisas e me pergunta:
– Me ajuda?
Fico um segundo parada.
– Meu cobertor, a ponta, me dá ela aqui?
Um lado meu diz para dizer qualquer coisa e ir embora. O outro diz que é só uma pessoa pedindo ajuda com o que está carregando.

Vence a gentileza e toco, pela primeira vez na vida, no cobertor de um morador de rua.
– A outra ponta também, me dá ela aqui.
Obedeço e nem me parece mais tão difícil.

Ela segue me pedindo para que eu a ajude com as coisas que estão caindo do emaranhado de panos mas a convenço de que os biscoitos quebrados e a garrafa vazia de Coca-Cola não eram importantes. Cai outra coisa dos seus panos. Uma nota de 10, amassada como uma bolinha.
– Esse é dinheiro. Esse você guarda.
Ela pega e coloca de volta na minha mão.
– Toma. É seu.
Lembro que ela não é muito boa da cabeça e recuso.
– Não, é seu, moça. Você precisa dele mais do que eu.
– Mas eu quero te dar – e enfia a nota na gola do meu casaco.
Entendo que, se não posso aceitar, também não posso recusar. Que qualquer passo em falso é pisar em algo que nem sei o que é.

Então finjo que aceito, agradeço muito e me despeço. Saio escondendo a nota na sacola dela e volto a subir a Rua Pamplona. Mas é como se a nota ainda estivesse na minha gola. A nota ainda está na minha pele. A nota está, ainda quente no meu coração.

Penso que é um daqueles momentos em que a vida ilustra uma ideia para que você entenda o que achava que sabia. Não é o valor da oferta que conta. É a oferta. Não é só dar o que você quer dar, é dar o que o outro precisa. E, às vezes, é só ajuda para segurar as pontas.

2 replies to “As Pontas

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