Na Janela

Quem conta: julianacasemiro
Conta mais: sobre as escolhas que fazemos.

Das dores físicas e emocionais que já vivi, essa foi uma das maiores. Mas eu decidi ignorá-la pra me despedir de uma amiga que vai morar fora. Lembro de estar na rodoviária esperando o ônibus e pensar mil vezes sobre não ir – como o ônibus atrasou, deu tempo de reconsiderar voltar pra casa.

Na verdade, eu poderia ter ido um pouco antes em outra companhia, mas é daquelas que não me sinto segura. Paguei o preço da espera e, pra evitar ficar em pé muito tempo, decidi que subiria por último. Acontece que meu bilhete foi duplicado e uma senhora já estava na minha poltrona.

A sensação do “estar dando tudo errado” não foi tamanha, então, com o ônibus já em movimento, eu fui procurar um lugar pra sentar. Ironias do destino, tinha apenas uma janela livre, com uma pessoa no corredor. E tudo que eu queria era uma janela, pra virar pro lado e dormir até a viagem acabar.

O vizinho estava no computador, mas parou tudo pra ser gentil. Não muito tempo depois, paramos num trânsito já na estrada e eu comecei a me desesperar. Se fosse na cidade, eu iria descer. Cheguei a usar a palavra “arrependimento”. A dor me lembrava toda hora que estava lá. Vendo meu desconforto, ele perguntou se poderia me ajudar. Eu expliquei que estava com dores, pra ele não se preocupar se eu começasse a chorar. Ele respondeu:
– Faz bem chorar. Já coloca outros problemas junto e chora tudo.
Parecia que ele me conhecia…

Um tempo depois, me peguei com pensamentos tão negativos que perdi o sono. Tomei um remédio, enquanto olhava lá longe a estrada ainda parada. Ele puxou papo sobre nossas profissões e fez a proposta:
– Não quero ser inconveniente, mas posso te mostrar meu portfólio. Quem sabe te distrai da dor?
Bingo! Dali em diante, não paramos de falar um minuto.

Achei curioso que, até dos problemas, ele falava sorrindo. Trocamos ideias, histórias, ele até abriu algo bem pessoal da sua família e eu achei normal. Estávamos presos ali, eu desabafei a minha dor e ele desabafou a dele.

Eu não sei quanto tempo durou a viagem, mas acho que uma hora além do previsto. A dor passou. Não sei se foi o remédio ou o fato que ele me resgatou dela. Antes do papo, eu considerava cancelar meus planos. Depois, eu só pensava em vivê-los.

Peguei o ônibus atrasado, pensei em ir embora, perdi meu lugar, mas entendi que eu precisava estar aonde eu fui parar.
Que sorte a minha!

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