No Natal

Quem conta: marceladonatello
Conta mais: a gente sempre encontra o que precisa.

Era madrugada de 23 pra 24 de Dezembro de 2010 e eu chegava em Lille, a cidade em que eu morava na França, depois de uma viagem de volta que tinha durado oito horas a mais do que o esperado. Cansada, sozinha, com apenas alguns trocados em moeda local, um palitinho de bateria no celular e toneladas de neve caindo lá fora.

Os últimos dias tinham saído bem fora do esperado e o atraso da viagem foi a cereja no bolo da frustração. O plano era chegar no fim da tarde, entrar na estação, sacar dinheiro e pegar o metrô pra casa tranquilamente, mas oito horas a mais me jogaram na madrugada e, de repente, chegar em casa se mostrou uma tarefa complicada.

Não tinha metrô, ônibus ou jeito de ir a pé. Também não tinha um amigo pra pedir socorro. Nevava muito e eu e mais uma dúzia de pessoas esperávamos na porta da estação fechada por alguns táxis que pudessem nos levar pra casa. Mas táxi na França é um desafio per se e eu sabia que, sendo feriado, eu não tinha as chances a meu favor.

“Estamos em recesso, Joyeux Noël!”, dizia a secretária eletrônica de uma das companhias que eu liguei. Era a terceira tentativa sem sucesso. Me aproximei de outros dois motoristas – que os locais conseguiram chamar – e perguntei se podiam voltar pra me buscar ou chamar um colega. Um estava encerrando o turno, o outro não tinha rádio-táxi… e lá fui ficando enquanto as pessoas, uma a uma, encontravam o rumo pra suas casas quentinhas.

Me desesperei. O que raios eu estava fazendo num país que não era o meu, na véspera de Natal, sozinha? Por que foi que eu achei que seria boa ideia passar uma data dessas sem um abraço amigo? Não deu pra controlar as lágrimas e senti a solidão como poucas vezes tinha sentido. A bateria do celular acabou e comecei a aceitar que não teria jeito de ir embora antes de amanhecer.

Uns metros ao longe, um carro chegou pra buscar a única pessoa que tinha sobrado ali comigo. Minutos passaram e, no auge do meu desespero, notei que um senhor saia daquele carro pra vir em minha direção. Em francês, ele perguntou se podia me ajudar e eu disse que ficaria muito grata se ele me arrumasse um taxi. Percebendo que eu não era local ele quis saber minha nacionalidade e, com a minha resposta, exclamou empolgado em bom português:
– Então entra no carro, menina, que eu te levo pra casa!

As minhas lágrimas multiplicaram e eu rapidamente me senti aliviada: eu não estava sozinha. Entrei no carro pra descobrir que se tratava de uma família linda de angolanos – pai, mãe e filha, que percebeu que eu estava sobrando ali e pediu ao pai pra me ajudar. Não satisfeitos em salvar o meu dia e os meus dedos do pé quase congelados, eles me chamaram pra passar a ceia de Natal com eles e repetiram, quase como um mantra:
– Você não vai passar o Natal sozinha, você não vai passar sozinha.

Por algum motivo que não sou capaz de explicar, não trocamos contatos e nunca mais tive notícias. Gosto de achar que eles pensam em mim de vez em quando e guardo bem perto do coração a lembrança dessa família que me acolheu como sua. E, principalmente, me lembro de que nunca estou sozinha.

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