John Kennedy

Quem conta: fredericoborgonovi
Conta mais: histórias geram histórias.

Era 1999 e eu ainda estava na faculdade quando viajei com meus amigos de carro pelo litoral do Rio de Janeiro, Bahia e Espírito Santo. Passamos por uma cidade para sentir o vento passar: Cumuruxatiba-BA, onde o tempo parava, o sorvete custava alguns centavos e o albergue amanhecia em frente ao mar.

Pegamos o barco do Pezão, capoeirista e pescador, e partimos para um passeio rumo à Ponta do Corumbau. Não sem antes dar uma carona para John Kennedy, um cara bem magro, com uns 40 anos, cabelo grisalho amarrado num rabo de cavalo, que fumava o tempo todo e contava histórias como ainda se fazia no século XX, entretendo vidas desconectadas com palavras.

Uma das suas histórias, sobre a infância em Itaúnas-ES, me chamou a atenção por parecer uma novela. Ele disse que lembrava da época em que a areia tomou conta da cidade, invadida por dunas, que mais tarde formariam o Parque Nacional das Dunas. John Kennedy contava com tanto sentimento, que lembrava da sensação da areia ardendo nos olhos. Nos acompanhou por uma caminhada no nosso destino e demonstrou que, na verdade, o destino era dele. Agradeceu a conversa e subiu numa casa na árvore. Disse ao Pezão que ficaria por ali, dispensando a carona de volta.

Por um acaso – que o Mestre Oogway, de Kung Fu Panda, diria não ser acaso -, nossa próxima parada no roteiro já estava estabelecida antes de sairmos de São Paulo: Itaúnas-ES, eleita uma das praias mais belas do Brasil, onde conheci outros personagens que poderiam render histórias – como o homem que atravessou o litoral a pé para escolher uma praia para chamar de lar e terminou construindo lá uma pousada; e o Poeta, fã de Che Guevara, que morava na pousada e pagava sua estadia com obras de arte.

Anos depois, quando resolvi dedicar mais tempo da vida a escrever crônicas, versos e histórias. Rascunhei em folhas de caderno o que seria o meu primeiro projeto de livro – um romance sobre uma cidade invadida pelas dunas, com o passado escrito em versos, o presente em prosa. Outro dia, achei esses papéis meio amarelados pelo tempo e dei uma lida. Na praça central da cidade nova, havia a Barbearia John Kennedy, onde se discutia os rumos da greve municipal dos garis.

Acho que, às vezes, quando olhamos para o papel e começamos a escrever, percebemos que quem realmente conta a história são as lembranças, os personagens e os diálogos que dão sentido a quem procura ouvir. Não somos os donos das palavras.

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