O Pãozinho

Quem conta: claudiadias
Conta mais: sobre encontros e partidas.

Era final de tarde e eu estava finalizando uma semana difícil, com perdas de amigos, stress profissional, dores musculares … enfim, uma maratona de acontecimentos que minaram minha energia quase por completo. Não queria ir direto pra casa, precisava de um café, um docinho para desacelerar e um lugar calmo.

Fui a uma filial da padaria que costumo frequentar. Lá é menor e talvez conseguisse o “trio” que procurava. Encontrei o café, o doce, mas o lugar estava lotado! Acredito que todos estavam em busca da mesma paz. Insisti e fiquei em pé tomando meu café e comendo um pãozinho que se chama “Lua de mel” (vai goiabada dentro e a massa é de outro mundo). Um atendente querido perguntou se precisava de mais alguma coisa e eu disse:
– Esse pãozinho é de comer rezando, bom demais!

Nessa hora ouvi um rapaz atrás de mim dizer:
– É mesmo? Qual é o pãozinho?
Mostrei e disse que ele não iria se arrepender. Ele pediu o mesmo e completou:
– Estava te observando e, quando você disse que era de comer rezando, lembrei imediatamente do meu pai que se foi há um ano e meio. Italiano fervoroso, adorava comer e cozinhar na mesma proporção. Quando a comida estava muito boa, dizia: “É de comer rezando!” ou “Ma che bella pasta de comer ajoelhado!”. Ele observava todos à mesa e a cada “hum” ele se saciava… e você estava comendo com uma cara tão boa e se deliciando com esse pãozinho que, por um momento, senti que ele estivesse aqui!

Ainda estática com a abordagem e o relato, fiquei feliz em trazer uma lembrança boa através do gesto e das palavras. Respondi:
– Apesar de não ser comilona e ter cuidado com algumas intolerâncias, vejo a comida como algo sensorial que remete a pessoas, lugares, momentos…
E o papo fluiu. Ficamos num cantinho conversando com os pratinhos na mão por mais de uma hora. Ele tinha acabado de chegar de viagem do exterior e me deu várias dicas.

O assunto não teria fim. Nos despedimos e só aí nos apresentamos. Fui embora feliz pelo tumulto que nos aproximou, pela conversa, pelos encontros inusitados que a vida proporciona alinhavando necessidades momentâneas de maneira tão singular, em que cada um compartilha o seu melhor na mesma intensidade.

Em pensar que, se tivesse ido embora logo que cheguei, teria perdido esse momento de lembrança, encontro e partida, que é tão bem explicado na música “Encontros e Despedidas”, da Maria Rita: “O trem que chega é o mesmo trem da partida, a hora do encontro é também da despedida”. E aí? Vai ficar parado ou aproveitar a viagem?

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