Em Oxford

Quem conta: marcelaalmeida
Conta mais: sobre capuccinos, seres humanos e um pedido de emprego.

Ato I – O capuccino sem açúcar nem adoçante

Ontem à noite, durante uma conversa com meu pai, falamos sobre como decisões rotineiras, às vezes, podem mudar o curso de nossas vidas para sempre. Foi por causa de uma conta antiga em um certo banco, com números de que gostava, que quando jovem, ele conheceu a mulher mais linda do mundo, que viria a ser a mãe de seus 04 filhos.

Eu sempre evitei ir a restaurantes brasileiros fora do Brasil. Quando viajo, não vejo sentido em buscar o que sempre tive. Entendo que se estou morando em outro país, não devo manter a mesma vida que tinha antes. Me interessa explorar o novo, o desconhecido. Mas ao entrar nesse restaurante, eu me senti diferente. O ambiente não buscava ser tipicamente brasileiro, a sua atmosfera era cosmopolita, aconchegante e elegante ao mesmo tempo. Uma porta no meio do centro de Oxford que te leva para um salão com ar europeu e aroma de comidinha boa. Toque de mestre.

Ao chegar no local pela primeira vez, a princípio apenas para acompanhar dois amigos com desejo de pudim e bolo de cenoura, resolvi pedir um capuccino. Apesar de ter parado de tomar leite há vários meses, por algum motivo, me pareceu uma boa ideia. Nos sentamos em um dos sofazinhos do salão e F., o proprietário – que carrega o nome do restaurante – me perguntou se eu gostaria de 13 ou 17 sachês de açúcar. Entendi a brincadeira e respondi que 15 seriam o suficiente. Rimos educadamente.
Experimentei o capuccino e percebi que não precisaria adoçá-lo. Como sou dessas clientes que adoram encontrar motivos para elogiar o serviço – se houver, claro – elogiei a bebida dizendo que, de tão gostosa, não precisaria de mais nada. F. agradeceu e logo se retirou.

Não foi uma experiência memorável, mas fiquei com aquele lugar na cabeça. Sabe quando o “santo” bate com o da outra pessoa? Eu não sou lá muito simpática e de fácil amizade, mas essa sensação boa me fez voltar no dia seguinte, numa manhã de domingo e pedir, lógico, um capuccino, para viagem. F. me atendeu e, confirmando sua simpatia, disse:
– Ah, então não foi da boca pra fora, né? Gostou mesmo!
Eu, sorrindo, confirmei. Paguei o meu café e ele, por não ter troco, me deu 10 centavos a mais do que eu deveria receber. Ninguém disse uma palavra, mas eu percebi e me tornei cliente após dois despretenciosos capuccinos. Nem imaginava ser mais do que isso.

Ato II – O amargo desemprego

Eu decidi me mudar para Londres, mas não o farei antes de ter um emprego nessa capital cujo custo de vida e a minha situação financeira não podem coexistir sem que haja a intervenção de uma relação empregatícia – desculpem, às vezes a “advogada” me visita. Desde que cheguei, mesmo durante a experiência de faxineira, enviei diversos currículos para diversas vagas – quando percebi que sou qualificada para todos os empregos que não desejo ter – as quais me pagariam salários que tornariam o plano possível. Mesmo sofrendo um pouquinho com a ideia de voltar a um escritório, pensei que seria um desafio por ser em inglês dessa vez. E desafios são sempre bem vindos, pois nos levam a um passo adiante.

Me estabeleci um prazo para estar empregada. De maio não podia passar. Combinei comigo mesma que se não aparecesse algo concreto até o final de abril, começaria a me oferecer para trabalhar em lugares diversos, ainda que para receber o salário mínimo.

Em 26 de abril eu recebi um não após a única entrevista para a qual fui chamada.
Nesse mesmo dia, enviei uma mensagem via Facebook ao proprietário do tal restaurante onde tomei o tal capuccino.

Ato III – A mensagem

Me mudei há pouquíssimo tempo para a Europa, mesmo assim, a distância da zona de conforto já me ensinou algumas coisas. Uma delas é algo muito simples: a constatação de que somos todos seres humanos. Parece óbvio, mas não é algo que eu conseguia enxergar de forma tão clara. Tenho aprendido que não precisamos ter medo nem qualquer vergonha de falarmos uns com os outros, sobre o que for. Temos de baixar a guarda, ignorar um pouco os rótulos que carregamos ou que injustamente distribuímos, pois só criam barreiras entre nós. Caso contrário, perdemos inúmeras chances de fazermos conexões, de descobrirmos afinidades, trocarmos ideias, de dividirmos a nossa história e conhecermos a do outro, ou até de ter uma ideia que não nasceria caso não conhecessemos aquele alguém.

Acredito que passamos muito tempo imersos apenas em nossos universos particulares, com a equivocada certeza de que ele é o único que existe. Inconscientemente, todos fazemos isso: somos os personagens principais das nossas histórias, contadas sempre pelo mesmo locutor. Caminhamos pela vida temendo esbarrar nos outros que, no fundo, procuram o mesmo que nós – a felicidade. E por isso nos conectar é justamente o que deveria nos deixar à vontade para fazê-lo.

Pense ou não como eu, foi toda essa filosofia que me fez criar a coragem de enviar a mensagem ao dono do restaurante brasileiro que me serviu dois capuccinos.
F. demorou quase um dia inteiro para me responder e quando eu já estava me achando uma tola, recebi a resposta de que poderíamos conversar no final de semana. Era ainda terça-feira.
No sábado, saí de casa com a missão de expor a ele minha história. Nem pensei numa estrutura de como o faria, acho que tem coisas na vida que precisam ser espontâneas e essa definitivamente já tinha começado como uma, melhor que continuasse sendo.

Apareci em seu restaurante, que estava com um intenso movimento digno de almoço de domingo e fiquei feliz, pois ele logo me reconheceu. Vi nele a cara constrangida de quem não poderia, de jeito nenhum, falar comigo naquele momento, então disse que estaria pelos arredores e que bastava que me enviasse uma mensagem quando estivesse livre, que eu voltaria.

Me distraí da parte ansiosa que me persegue em uma cafeteria perto dali e em duas horas recebi a esperada mensagem: “Marcela, to livre.”

O que eu mais gosto nos meus momentos de espontaneidade é que, uma vez que eu comecei algo, chega um ponto em que eu não posso voltar atrás. O medo, vergonha, ansiedade, sempre vêm me prestar uma visita, mas a situação já foi criada e eu tenho que encará-la. Até hoje, não me arrependi de nenhum desses momentos.

Ato IV – A conversa sem açúcar nem adoçante

Sentamos em uma das mesas do restaurante e eu olhei nos olhos daquele homem que eu nem conhecia e fui o mais sincera que poderia ser. Éramos dois completos estranhos unidos apenas por um capuccino doce o suficiente para o meu paladar e minha enorme vontade de trabalhar onde me rendesse uma boa história – já desprendida de qualquer desejo de ganhar muito dinheiro.

Não havia motivos para eu ser qualquer coisa além da versão mais pura de mim mesma. Sem açúcar nem adoçante. E foi assim que eu contei a ele sobre uma advogada brasileira, inconformada e sonhadora, que disse adeus à vida certa que tinha e foi em busca de algo que fizesse sentido, no velho continente. Mesmo correndo o risco de parecer uma maluca, essa tinha sido a parte fácil do papo. Ao final da minha biografia, fui ao ponto: “Eu queria saber se você tem algum trabalho que eu possa fazer aqui. Qualquer coisa. Eu quero ter essa experiência. É algo que eu nunca fiz, que eu nunca faria no Brasil.”

Feito. Eu tinha acabado de pedir um emprego. Sem nenhuma experiência, nenhuma relação de amizade, nem vaga disponível. Nada.

E para confirmar que meus instintos estavam certos, mas ainda com sabor de surpresa boa, ele sorriu e disse: Marcela, sua história é inspiradora. – Fiquei em êxtase por ele ter escolhido a minha palavra favorita de 2015 e, após me dizer que me achava corajosa pelo meu feito, e que também tinha, aos 23 anos, decidido ir embora para construir algo melhor, me disse com franqueza:
– Infelizmente, eu não tenho nenhum trabalho para te oferecer.

Eu já esperava por aquela resposta.

De toda forma, estava sinceramente feliz de ter tido a coragem de marcar aquela conversa, de sentar na frente de um completo “estranho” e ser vulnerável a ponto de pedir um emprego, enxergando-o apenas como outro ser humano que poderia compreender minha busca pela felicidade.

Eu o agradeci pelo tempo gasto comigo e disse que aquela já tinha sido uma experiência de que não iria esquecer.

Ato V – A corrente do bem

Antes de eu terminar de agradecê-lo, F. desviou o olhar por alguns segundos e, pensativo, disse:
– Eu não tenho… mas eu quero ter. Eu posso te oferecer algo sem vínculo empregatício. Um trabalho de meio-período.
Eu, com o maior sorriso do mundo, respondi sem hesitar:
– Sim! Funciona para mim! Pelo período que você puder! Quero muito essa experiência!
– Marcela, você vai se cortar, provavelmente, coisas de cozinha. A responsabilidade será sua. Você vai ser tratada como qualquer outro funcionário, vai ser cobrada, pressionada.
– É isso que eu quero. Eu quero que seja real.
– Mas eu tenho que te falar uma coisa, é uma condição para que você possa trabalhar aqui.

Fiquei pensando se eu teria de divulgar o restaurante para meus amigos, algo do gênero.

F. continuou: – Eu não precisava de uma funcionária nova agora. Bem, o que eu quero dizer é que de certa forma, isso é uma ajuda que eu estou te dando. Você tem que me prometer que se um dia alguém cruzar o teu caminho precisando de ajuda para realizar um sonho, você vai ajudá-la com o que estiver ao seu alcance.

Eu mal pude acreditar que ainda existem pessoas tão doces no mundo. Contei a ele que toda vez que alguém me ajuda, se inicia em mim uma corrente do bem, uma genuína vontade de estender minha mão para quem precisar, pois um dia alguém fez o mesmo por mim. Acho que minha mãe tinha razão – Amor se multiplica.

E ali selamos nosso acordo casual de trabalho, que, no entanto, ainda precisava da aprovação da gerente do estabelecimento, F. não podia simplesmente inventar uma funcionária nova na rotina do lugar. Deixei claro que eu entenderia se eles concluíssem que eu poderia prejudicar a interação dos demais empregados, e ele ficou de me dar uma confirmação.

Combinamos não contar a ninguém que eu estava ali para contar uma história. Eu seria apenas uma brasileira que precisava de um emprego, nada além disso.

Saí daquele lugar sabendo que algo tinha mudado no meu minúsculo mundo. A felicidade me invade toda vez que saio da jaula do perfeccionismo – Não adianta tentar, nunca serei perfeita e tudo bem se eu parecer uma boba. Somos todos seres humanos, afinal – Essa onda filosófica pode parecer forçada, mas é o que tem dado sentido à minha vida nos últimos meses.

Antes que o dia terminasse, recebi uma mensagem de F. Era um convite para um treinamento no dia seguinte, na hora do almoço. Eu, com um pouco daquele mesmo medo que sentiu a garota que nunca tinha feito faxina por dinheiro, imediatamente respondi:
– Estarei lá, conte comigo.

Senti uma agitação correr dentro de mim. E dessa vez eu não tinha tomado nenhum capuccino. Essa agitação não me deixou dormir direito naquela noite. Mas acordei cedo, peguei um ônibus e parti para o primeiro dia em que entraria em um restaurante para usar avental.

Essa é apenas a primeira parte de uma história que estou adorando acompanhar. A Marcela divide toda a sua experiência incrível no lindo: http://www.mardealmeida.wordpress.com

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