Na Lojinha da Rua – Marcelino

Quem conta: julianacasemiro
Conta mais: um dos protagonistas da última edição da Lojinha da Rua.

Estava na Lojinha da Rua conversando com um senhor brasileiro, na tentativa de descobrir o endereço da sua família e conseguir enviar um Gratidão Postal. Alguém trouxe um rapaz que gostaria de escrever também e disse que ele entendia português. Eu pedi que ele esperasse um pouquinho.

Como o papo demorou, entreguei uma caneta e um postal e sugeri que começasse. Ele parecia bem cabisbaixo, mas antes de eu conseguir ouvi-lo, me chamaram e tive que sair dali para uma foto. Ao voltar, um amigo me disse que o rapaz estava chorando e conversando com o senhor brasileiro.

Sentei na minha cadeira que estava entre os dois e ouvi o rapaz:
– Eu tenho muitas saudades da minha mãe. Está muito difícil estar aqui, mas faço isso por ela.

Seu português era muito melhor do que eu imaginava. Ele se expressava com uma emoção enorme e eu tentei me manter forte pra que ele pudesse chorar tudo que estava preso. Assim foi.

Marcelino tem 23 anos e está no Brasil há 1. Ele disse que o sonho da sua vida é voltar pra casa, porque aqui sofre preconceito no trabalho, ganha pouco e sente muita falta da mãe. Mesmo. Toda hora que ele falava dela, as lágrimas voltavam. Foi triste também ouvi-lo descrever que o fazem passar fome no restaurante que trabalha:
– Sempre sobra comida, mas jogam fora na nossa frente.

Ele comparou o preço da passagem com o seu salário e os gastos que tem de aluguel e envio de dinheiro para a mãe. Sim, ele veio com o sonho de propor algo melhor pra ela e todo mês manda alguma coisa. E, quase sempre, fica sem nada por muitos dias.

Eu queria abraçar Marcelino como a mãe dele o faria se visse aquela cena. Logo veio uma repórter perguntar dele e o que estávamos fazendo, enquanto ele escrevia o postal pra enviar pra casa. Ao contar sua história, não aguentei e comecei a chorar. A dor dele doeu muito em mim. A repórter se emocionou também e lembro de todos ao redor o incentivarem a estudar, porque ele disse que amava livros.

Em muitos momentos ele repetia que não aguentaria ficar mais tempo no Brasil, como os outros que chegam a passar 3 ou 4 anos nessa vida até conseguir retornar ao seu país.

Entre tantas palavras que disse, Marcelino me marcou nas que deixou por escrito: “Mamãe, eu te amo muito. Sinto muita saudades de você. Estou muito triste porque você não está aqui perto na hora de dormir pra gente contar piadas. Agora você está longe. Você preenche o meu coração.

Conheça a história do Gratidão Postal aqui e saiba mais da Lojinha da Rua aqui.
A matéria bonita que escreveram do projeto e do Marcelino você lê aqui.

One reply to “Na Lojinha da Rua – Marcelino

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
close-alt close collapse comment ellipsis expand gallery heart lock menu next pinned previous reply search share star