O Exemplo

Quem conta: claudiadias
Conta mais: sobre (querer) ser um bom exemplo.

Era uma manhã de inverno e estava no trânsito pensando na reunião que se iniciaria em poucos minutos. Se tratava de uma oportunidade profissional melhor, estava ansiosa, uma vez que o processo seletivo contava com 5 etapas e eu já seguia para a quarta rodada.

A cada degrau percorrido, a ansiedade aumentava proporcionalmente; pelos amigos que concorriam juntos, pela oportunidade de um novo aprendizado, condição financeira melhor, pela responsabilidade e pelo merecimento, que só quem sabe de cada centímetro do árduo caminho percorrido, entende a relevância. Parei no sinal. Visualizei uma senhora de meia idade atravessando a rua pela faixa de pedestres. Ela se apoiava com uma muleta e carregava um pacote. Com agilidade e certa dificuldade, atravessou e deu um suspiro ao chegar à calçada. Fiquei com a sensação de alívio daquele suspiro.

Segui para o compromisso. Na sala onde estávamos reunidos para a prova, fomos informados que o conteúdo era igual, mas as provas diferentes. Encontrei uma conhecida que estava trabalhando com o pessoal que iria aplicar a prova. Ela me viu e veio me cumprimentar. Em outro momento, trabalhamos no mesmo lugar. Percebendo a ansiedade que pairava no ar e sabendo que sou super brincalhona e acolhedora, me chamou no canto e disse:
– Jamais pensei que fosse dizer isso, pois esse papel é seu, de acalmar, entender, acolher, eu sou mais estourada hahaha… tudo vai dar certo e, se precisar, dou uma ajudinha!

Aquelas últimas palavras ecoaram e remeteram-me a imagem da senhora de muleta no sinal e do suspiro de alívio ao atravessar a rua. Então disse, comovida pela reflexão, nervosismo e o bom senso que, mesmo diante das adversidade, nunca me faltou:
– Olha, agradeço sua intenção de ajuda e carinho, mas eu não teria como olhar depois para as pessoas que esperam uma postura justa e de bons exemplos. Ainda não tenho filhos, mas tenho sobrinhos e me orgulho muito do respeito que eles têm por mim…

Pronto, já estava chorando e precisei me acalmar pra fazer a prova. Ao final, ela me chamou de novo e disse:
– Você não mudou nada, sempre me surpreendendo. Eu não esperava outra postura sua, mais um aprendizado pra mim!

Nos despedimos. O resultado saiu e não passei por um mísero ponto.

Toda vez que lembro dessa história, sinto a sensação daquele suspiro ao atravessar a rua. Fiz o que acreditava estar certo e importante pra mim. Manoel de Barros, o grande poeta, escreveu: “…que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.”. No meu caso, pela consciência de ter feito o correto!

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