O Samba

Quem conta: mariahelenaalvim
Conta mais: o Rio de Janeiro tem suas certezas.

Calhou de eu ir para o Rio de Janeiro à noite. Antes de decolar, observo os prédios ao redor do aeroporto de Congonhas e lamento não ser o contrário: estar no Rio à noite e voltar para o cinza aconchegante e previsível da minha cidade.

Ainda no avião começo a tensão pré-táxi, rezando para não ser (muito) enrolada no caminho do aeroporto ao hotel. Cogito pegar o ônibus, mas é bem tarde e estou de mala. Na fila digo “Barra” e a moça anota no papel com deleite. Depois pula dois carros da fila e me coloca no terceiro, o do seu amigo.

Fico pensando que em São Paulo isso daria morte e ampla cobertura jornalística, enquanto tento avaliar se é bom ou ruim que o taxista e a moça sejam conhecidos. Um aplicativo me diz um caminho, ele sugere outro:
– Vai por mim, quem é daqui sempre pede esse.
Me dei mau, penso eu, e grudo, resignada, meus olhos na janela.

Fico calada até cruzar com o barracão de uma escola de samba e deixo escapar um comentário. O taxista ri uma risada terrível, dizendo que aquele é o barracão antigo. Penso em temas sérios para conversar, mas ele já emenda perguntando se eu gosto de samba. Não sei se pode ser bom ou ruim eu gostar ou não de samba, então saio com um “gosto, mas não conheço muito”.

Ele se empolga e começa a contar como conheceu a velha guarda da União da Ilha. Nomes, feitos, parentescos. E a história de uma lendária gravação feita ao vivo no barracão da Ilha, só com os maiores sucessos da escola. Me diz que ganhou esse CD de um passageiro e que gostou tanto que fez cópias pra distribuir. O passageiro curtia? Ia pra casa com o CD!

Até o dia em que fez a conta errada e ficou sem o seu. Foram 4 anos amargando a ausência da gravação amada. Eis que numa corrida, ele ouve uma voz conhecida no banco traseiro e é justo o passageiro do primeiro CD. Perguntei se ele tinha o CD. Foi a deixa que ele esperava desde o início da corrida.

Fico um pouquinho angustiada, sem saber o que pode vir das caixas de som, mas é um batuque daqueles que batem no peito. Um batuque de responsa. Amo aquele som quase que imediatamente. Começo a batucar na porta do carro e mais um pouco estamos nós na Linha Amarela ouvindo o CD no máximo, batucando e cantando “É hoje o dia da alegria; e a tristeza não pode pensar em chegar”.

Um carro ultrapassando pela direita e uma moto pela esquerda. A pista do lado interditada porque tombou um ônibus. É tudo absurdo, caótico e maravilhoso. Estou no Rio de Janeiro e não tenho mais nenhuma certeza. Assim seja.

One reply to “O Samba

  1. Adoreiiiiiiiiiiiiiii essa história, Maria Helena!!
    Coisas do Rio, não é mesmo!?
    Não tive uma manhã das mais agradáveis e esse post da Temporary People fez alegrar o meu dia! ;)
    #gratidaosempre

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