No Check-in

Quem conta: julianamachado
Conta mais: aeroportos são propícios para histórias e essa é a minha.

Uma vez viajei de férias com uma amiga de quem eu era praticamente uma gêmea siamesa. Fomos pra Búzios, ficamos uma semana e conhecemos muita gente bacana no hostel super legal em que ficamos hospedadas. De tão legal e de tanto que gostamos de lá, no penúltimo dia o dono do hostel nos convidou pra trabalhar pra ele, porque falávamos outras línguas, ajudávamos os hóspedes com muita facilidade e cozinhávamos bem.

Isso era a primeira semana de janeiro e ele precisa que ficássemos lá até depois do carnaval, que nesse ano seria em março. Depois de pensar muito sobre sair de casa pra passar uma semana fora e ficar 3 meses, eu me decidi. Eu pensei em tudo, menos no que eu realmente queria fazer, que era ficar. Mas amar é se sacrificar pelas pessoas e pelas coisas que valem a pena, então eu resolvi voltar pra Belo Horizonte e a minha gêmea siamesa resolveu ficar em Búzios.

No dia de vir embora, eu peguei o ônibus e chorei de Búzios até o Rio sem parar – o que pelo que eu me lembrei deu umas 3 horas. Quando cheguei no aeroporto Santos Dummont pra fazer check-in e despachar minha bagagem, estava com uma cara péssima, inchada, vermelha, parecia que alguma coisa realmente grave tinha acontecido (pra mim, esse tipo de coisa não é grave, mas é sério e delicado; as renúncias que a gente faz na vida mudam MUITA coisa no fim das contas!).

Fui pro balcão da companhia aérea, que sempre sofreu muitas críticas pelo serviço que prestava. Não tinha fila, estava quase na hora do voo, cheguei, estacionei minha malinha, coloquei meus documentos e a minha cara de desconsolo no balcão. E começou o diálogo:
– A senhora escolheu assento no momento da compra?
– Não…
– A senhora prefere janela ou corredor?
– Pode ser janela, por favor.
Pausa pro atendente checar os assentos disponíveis no sistema.
– Ih, senhora. Eu não vou ter mais janela. Pode ser no corredor mesmo?

Em algum outro dia, se a viagem fosse a trabalho, se fosse de manhã muito cedo, se eu estivesse com fome, se eu estivesse atrasada ou em qualquer outro tipo de situação adversa, eu certamente faria uma cara de “jura?” pra traduzir o meu pensamento de “sério que você me perguntou qual eu prefiro, mas eu não tenho opção de escolha?”. Mas aquele dia eu tava com o coração muito partido pra ser babaca e só respondi:
– Ah, então pode ser. Qualquer fileira…
Outra pausa silenciosa enquanto o atendente marcava meu lugar no sistema. E eu lá esperando.

Eu já tinha parado de chorar, mas sabe quando as lágrimas continuam escorrendo, parecendo uma torneira que não está sendo usada, mas que foi mal fechada? Então.
– Olha, senhora, só porque a senhora foi muito gentil comigo, não gritou, não me xingou e não falou nenhum palavrão, coloquei a senhora na janela da fileira 1, tá? Essa fileira é preferencial pra idoso, gente com a perna quebrada, mãe com criança e tal, mas até agora não chegou ninguém assim aqui pra fazer check-in e pelo horário não deve chegar mais.

Enquanto ele falava, eu ria e chorava. Quis dar um abraço nele (na verdade eu queria dar um abraço em qualquer pessoa!). Que droga deve ser você estar lá trabalhando e pessoas chegarem te xingando, né?
– Assento 1A, embarque imediato. Boa viagem pra senhora, senhora.

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