Na Empresa

Quem conta: franciscocosta
Conta mais: ela me ajudou a recupar algo valioso para mim.

Eu tinha 25 anos e trabalhava em uma grande corporação que nunca implicou com a minha vestimenta e sempre defendeu a diversidade. Saí de lá para ir para uma oportunidade melhor e, no dia da admissão – eu, que era detentor de um cabelo desgrenhado cacheado, quase black power, vestindo um cardigã azul royal e uma calça skinny – me deparei com uma empresa conservadora, sem política para diversidade e cheia de regras para vestimentas e impeditivos.

Cheguei no prédio e nos primeiros passos reparei que olhavam para mim com repreensão. Até que uma menina que, por seu estilo único, destoava daquele andar todo e de todo o conceito da empresa, passou por mim, olhou pro meu cabelo e sorriu de forma a simpatizar comigo. E assim ocorreu no outro dia quando cruzei com ela novamente. Mesmo após esses sorrisos, outros olhares de repreensão foram colhidos por mim e então eu resolvi seguir um pouco mais nos padrões da empresa. Voltei dias após com o cabelo cortado e com uma roupa que não condizia com a minha personalidade. Passei semanas me sentindo fora de mim. Aquele não era eu, era algo moldado por uma corporação.

Mas eu entrava no andar e sempre me deparava com a menina estilosa e, toda vez que eu a olhava, meu coração se alegrava e me sentia acalentado. Ela parecia não se importar com as regras como as demais mulheres e defendia o seu próprio estilo. Todo dia eu olhava suas vestimentas e pensava: “Preciso falar com ela, pois nesse ambiente conservador só ela vai me compreender”.

Na verdade, não sabia se as pessoas se importavam ou não com o estilo dela, o fato é que ela me fez ter coragem de ir vestido de mim. Demorei meses pra perder a vergonha e falar com ela, até que surgiu uma oportunidade. Pedi licença e me aproximei puxando papo sobre a revista que ela cuidava, porque era fã do estilista que saiu na capa. Aproveitei e disse que amava seu estilo e que a empresa deveria nos deixar vestir o que nos faz bem.

Conversamos e ela foi simpática. Ali, pude ver sua segurança e consegui, aos poucos, me importar menos com os outros. Comecei a colocar minhas calças coloridas e deixei meu cabelo crescer. Ela, sem saber, me deu coragem. Ela, sem saber, enchia meu coração de esperança só por vê-la. Ela, sem saber, era o acalanto do meu estilo próprio. Sou muito grato por ela me permitir recuperar a minha identidade.

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