A Melhor Mesa – Parte I

Quem conta: julianacasemiro
Conta mais: eu só queria matar a fome.

Junho de 2013.
Da emocionada despedida na Romênia, parti para Grécia. Foi estranho porque mal dormi a noite, de tanto frio na barriga. Não sabia explicar as razões, mas eu sabia que algo importante aconteceria.

Tudo começou com a frase indignada: “Mas um dia não é suficiente em Corfu!”, dita pelo taxista que me deu carona do aeroporto até o hotel. E eu senti na hora que tinha feito besteira no itinerário.

Na verdade, Corfu era apenas uma passagem, por conta de outra viagem que eu faria. Cheguei no fim do dia após uma longa jornada, descansei e resolvi sair para fazer a única refeição do dia: o jantar. Eram 9 e pouco da noite e pedi sugestão pra mocinha fofa da recepção que gostaria muito de lembrar o nome. Já fui direta ao ponto dizendo que li na revista de bordo do meu voo sobre a ascenção da gastronomia italiana na ilha (já que não como carneiro e afins, era uma boa desculpa). Na hora ela falou do “La Famiglia” e eu nem contestei – lembrei da revista me convencendo a ir lá também.

Ela me disse que ficava em uma ruela, então eu deveria fazer a caminhada de 15 minutos até a Cidade Velha e apenas lá pedir coordenadas. E assim foi. Peguei um por do sol maravilhoso a beira-mar e cheguei na Cidade encantada com a doçura das pessoas nas portas de seus comércios – todos desejavam boa noite, davam “oi” aleatoriamente sem pedir que eu entrasse.

Seis pessoas depois e consegui achar a ruela. Entrei esbaforida no restaurante e esbarrei com o menino que atendia as mesas:
– Ainda dá tempo de jantar?
– Óbvio (com uma cara de… “óbvio”!).
– Onde eu posso me sentar?
– Você está sozinha?
– Sim.
– Então ali, aquela é a melhor mesa da casa na minha opinião.

Já adorei a escolha, me senti em casa. O lugar era um charme, bem italianinho, cheio de memórias nas paredes e velas nas mesas. Ele me trouxe o menu e o couvert. Na hora já pedi um prato “qualquer” (o cardápio todo era atraente) e ele falou que “não era esse prato que eu queria pedir”. Pedi a sugestão dele e ele disse as palavras mágicas:
– Rigatoni del pollarolo.
– É bom?
– Sou suspeito. É o carro-chefe do restaurante há algumas décadas.

O prato chegou, eu já tomava um vinho e… WOW! É de verdade isso? Eu prefiro doce e gosto de comer bem, claro, mas realmente não esperava aquilo. Era tipo almoço de domingo da minha avó. Estava inxexplicavelmente bom, ele viu que eu adorei e começou o papo:
– Quanto tempo você fica na ilha?
– Apenas essa noite…
– Mas um dia só não é suficiente em Corfu!
– Eu seeeeeei… estou arrependida.
Diante desse cenário, ele disse que era inaceitável eu não conhecer mais da ilha e me convidou para tomar um drink depois ali perto para ver outros lugares. Eu aceitei:
– Desculpa, nem me apresentei. Meu nome é Nicola. Nikos. E esse é o restaurante da minha família.
– Prazer. Meu nome é Juliana. Ju.
E a gente passou a conversar mais, até que na hora da sobremesa ele trouxe um cheesecake dos sonhos e eu cumpri meu objetivo ali. A segunda taça de vinho garantiu companhia, já que era fim de expediente e ele sentou na mesa comigo.

Muitas histórias depois, eu fiquei impressionada com o legado daquela família e chegou Yannis, o melhor amigo dele. Resumindo (!): o papo durou até 3 horas da manhã. Demos muita risada, nos emocionamos, debatemos sobre nossos países, sonhos, curiosidades, histórias pessoais. Parecia que nos conhecíamos de algum lugar. Foi um reencontro.

Fui embora contendo o choro, com a sensação de que estava deixando uma história para trás. Viagem faz isso com a gente, ainda mais sozinha.
Eles me deixaram num taxi, dei um abraço em cada um e cheguei no hotel arrasada, mas tinha poucas horas pra dormir e foi o que fiz.

Continua…

4 replies to “A Melhor Mesa – Parte I

  1. Pelamor!!! Dá prá continuar…tipo…agora, já, imediatamente!?!?!
    Quando eu digo que é para você escrever um livro…aiaiaiai…
    Coisa mais linda, gente!! Daí, fico eu aqui…imaginando as ruas, as pessoas, a decoração do restaurante, o cheiro, o gosto, o por do sol…tudo, tudinho mesmo!! E, isso, minha cara Ju…não tem preço!
    Minha gratidão eterna por fazer da minha tarde, uma viagem interminável, sem tirar os pés do chão! ;)
    Obrigada!!

    1. Hahaha espero que tenha gostado da continuação!
      Tentei descrever exatamente como foi, fico feliz de saber que despertou todas as reações em você! <3
      Eu que sou eternamente grata pela sua companhia nessa viagem comigo.
      Beijos

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