Na Romênia

Quem conta: julianacasemiro
Conta mais: ela virou uma das minhas pessoas favoritas no mundo.

Junho de 2013.
Berlim terminou depois do episódio do Brad Pitt e era pra continuar na Turquia. Visitaria uma das minhas melhores amigas que não via desde que fui embora de Londres em 2011. O problema é que dias antes começaram os protestos em Istambul e decidimos juntas que não seria a melhor hora de ir. Fiquei arrasada, mas a boa notícia é que antecipei a ida pra Romênia para encontrar a outra melhor amiga do grupo.

A Cat, sem dúvidas, é uma das pessoas mais sensacionais que eu conheci nesse planeta. Mas ela não é temporária, então não vale falar dela aqui. ; )
Quando voltou pra Bucareste, onde nasceu, ela começou a namorar um cara muito bacana que eu sempre quis conhecer. Felicidade dos amigos é minha também. E ali, naquele aeroporto, eu reencontrei um dos sorrisos que eu mais desejei ver.

Ela me contou que estava morando com o Chris e que a mãe dele estaria temporariamente na casa até se mudar para Dubai. Achei meio estranho e possivelmente incômodo, mas a minha opinião era a de menos. Chegamos no apartamento e lá estavam os dois. O Chris é um homem negro lindo e sua mãe, Cristina, uma mulher branca e gata. Já me apaixonei pela história deles sem sequer saber.

Conversamos muito e comemos demais. Ela cozinhava tudo o que tinha na geladeira. Era um open banquete eterno – tudo era absurdamente delicioso. Ela era muito espirituosa e tinha um abraço tão bom quanto de… mãe. Mami, como os dois a chamavam, vivia trancada em casa por passar por um período financeiro difícil. Ia pra Dubai na esperança de mudar sua vida. Já teve muito dinheiro, assustadoramente muito, e contava que vivia de salto e maquiagem. No passado.

Nossa convivência durou pouco, porque eu e o casal fomos passar uns dias na Transilvânia em uma experiência surreal que vai virar post em breve. Eles ficariam mais dias do que eu poderia, então tive que voltar de trem e me deu um certo medo – eu estava muito mimada lá e só andava com eles. Me deu um baque chegar na estação principal da cidade sem saber ler uma placa.
– Não se preocupa que a Mami vai te buscar.
– Mas como, se estou sem celular?
– Pode confiar, vai dar tudo certo.

Entrei no trem. Algumas horas depois, cheguei na lotada estação. Foram dez passos após sair do vagão e:
– UAU!!!!! Que mulher linda me esperando!
– Darling, me falaram pra eu vir te buscar e eu vim com tudo!

Mami estava maravilhosa! Cabelo, maquiagem, vestido e salto. Parecia uma dama da sociedade. E o taxista a esperava babando, naturalmente. Hahaha
– Vamos parar na feira. Você está com fome? Vou fazer algo especial pra você, darling.
Eu amava que ela me chamava assim. Virou nosso apelido.

E paramos em uma feira incrível. O taxista nos acompanhou e carregou tudo. Ela não me deixou pagar por nada. Quase brigamos. Uma hora ela precisava de trocado e aceitou do taxista, não meu! Foi uma cena inesquecível. Tive que falar que não gostava de algumas coisas para ela parar de comprar.

Chegamos em casa e ela fez um ratatouille dos sonhos. O almoço durou 4 horas. Ela me contou tudo da sua vida. Do chão de mármore na sua casa com 10 banheiros ao desejo de simplesmente virar servente nos Emirados Árabes.
– Chega dessa vida. Eu amo servir e sempre fui muito bem servida. Não vejo problema em mudar os papéis.

Choramos e rimos muito. Que mulher, que história! Ela tem tanto amor que transborda. Tivemos um dia feliz e terminamos tomando drinks num bar. No dia seguinte, passeamos muito e saímos com uma amiga dela. Nos arrumamos muito e ela estava insegura ao revisitar suas roupas de marcas caras. Fazia tempo que ela não vivia algo parecido. Ela estava animadíssima e eu só poderia me animar junto.
Na volta pra casa, ela combinou com o taxista de me buscar no dia seguinte pra me levar ao aeroporto. Logo cedo, ela acordou e me fez café, com o maior sorriso.

O taxista ligou da portaria e pedi que ela avisasse que eu precisava trocar dinheiro para pagá-lo (ele não entendia inglês). Ela disse que estava tudo certo. Ao entrar no elevador, nos abraçamos e choramos muito, com a vontade, mas não a certeza de um reencontro. Já fechando a porta, ela colocou algo no meu bolso e falou:
– Por favor, aceite.
Era o dinheiro do táxi.
Era pouco, mas eu não queria. Justo ela, com a situação que estava. Neguei.
– Eu não consigo te levar e é o mínimo que posso fazer em agradecimento pela felicidade que você me trouxe. Quero que você tenha uma memória feliz daqui!

Para ela, não era dinheiro. Nem pra mim. Ali, passei a entender melhor os valores da vida.
Nos abraçamos de novo. Ela me olhou e disse:
– Tchau, darling! Eu te amo!
– Eu também te amo, darling!

E a memória que eu tenho é tão feliz que sinto meu coração transbordar de amor como o dela, só de lembrar. Que saudades, darling! <3

6 replies to “Na Romênia

  1. Ohhhh, Ju!! Que história mais linda, viu!? Emocionante e inesquecível! A cada história que leio aqui, fico imaginando as cenas, as cores, os gostos e os cheiros…como num livro, e na verdade é o livro da vida que lemos no Temporary People! Cada página uma surpresa, alegria, emoção…e a certeza de que a gratidão é uma moeda valiosíssima para todos nós!! Obrigada por compartilhar!!
    Ah, #ficaadica: com esse material todo junto, você já pensou em publicar um livro?? ;)
    Beijo enooooooooooorme, @terecalyrio

    1. Minha querida Terezinha! Pare de me fazer chorar! Hahaha
      Coração transbordando daqui com tanto amor pelas suas palavras sempre! A gratidão é o melhor dos prêmios, temos que cultivá-la como podemos!
      Eu tenho meus sonhos, sim! Quem sabe um dia a gente não se conhece por isso??? <3
      Outro beijo enooooooorme pra você!

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