A Laranja Mecânica – Parte II

Quem conta: julianacasemiro
Conta mais: eu só esperava que ele aparecesse no bar.

Continuação do post anterior…

Não pensei duas vezes e desbravei aquele mar de gente frustrada com o Brasil em busca de um momento mais feliz. Encostei no braço do Bernardo. Quando ele virou e me viu, abriu um sorriso enorme e me abraçou:
– Eu não te encontrei antes! Que bom que você está aqui!

Ele foi sentar com a gente e abriu a passagem. Me senti segurança de uma celebridade (no auge dos meus 1,63m hahaha). Não tinha um ser que não olhava, interagia, dava a mão. E ele, claro, devolvia a simpatia de volta. As meninas já esperavam pelo encontro e foi super legal mesmo. Como ter um velho amigo ali sentado. Contei pra ele do temporarypeople sem sequer imaginar que ele seria uma história tão especial pra mim.

O jogo acabou e não fazia sentido estar ali. Ele não tinha planos, nem a gente, então resolvemos propor uma experiência verdadeiramente brasileira: um boteco! Chegamos em um bem vazio e grande, mas mesmo que estivesse lotado eu tenho certeza que a dona gritaria igual de felicidade! Foi divertidíssimo “chegar com o gringo”.

Lá sentamos e eu fiz a minha pergunta cliché e favorita:
– Qual é a sua história?
– Difícil resumir, mas vou começar com a minha chegada nos EUA há 30 anos atrás. Saí da Holanda e fui parar em uma cidade de interior muito pequena. Um tempo depois, descobri que estava em um dos lugares onde houve mais exploração de negros e ainda há o culto a isso. Eu sabia que aquilo significaria algo maior na minha vida, mas tratei de me mover. Foi quando fui para São Francisco. E eu amo aquele lugar. Foi onde surgiu a oportunidade de trabalhar com crianças com deficiência e essa é a maior realização da minha vida. Inclusive, semana que vem volto ao trabalho.

Ben nos contou histórias lindas da vida. Nunca se gabou de nada, era sua vida, afinal. E tinha a delicadeza de falar devagar pra uma das minhas amigas entender bem, enquanto olhava pra todas durante a conversa. Ele tem 3 filhos adotivos com deficiências, sendo um deles cego:
– Ele é muito certinho e resolvi provocá-lo. Ele tem um cabelo bonito, mas sempre deixa curto. Disse que se ele deixasse crescer enquanto eu viesse pra cá, eu deixaria minha barba longa. Quando eu chegar nos EUA, a primeira coisa que quero é que ele sinta o tamanho que ficou.

Ele tem 52 anos e um baú de memórias que pudemos acessar com muito carinho. Mais de uma vez na mesa, nos olhávamos com os olhos marejados. Ele também. O que emociona mais é saber que não trata-se apenas de um ser humano especial – todos somos, né? – mas de alguém que faz a sua parte de forma brilhante.
– Eu não planejo nada na minha vida, mas eu sei que posso tentar conscientizar as pessoas de uma forma feliz.

Rimos muito também. Alguém como ele só poderia ser completamente espirituoso. Ele contou experiências em outros países e perguntou bastante sobre nós. Foi especial dividir tanta coisa! Até que chegou a hora de descansar pra todos. Não antes das meninas conhecerem a Laranja, é claro. Fomos andando até lá e adorei ver a reação delas! Pedi pra ele se eu poderia escrever no caminhão, como tantos outros já tiveram essa sorte. Ele pegou uma caneta e todas nós deixamos a nossa mensagem. No fim, ele ainda abriu a “sua casa” pra gente. Incrível como eu imaginei! Mas naquela noite ele dormiria num hotel:
– Eu peço desculpas pra Nellie (nome real da Laranja), mas agora no fim vejo minhas finanças e… dá pra dormir numa cama de verdade!

Deu um apertinho no coração dizer tchau, mas a gratidão do encontro ficou em todos nós. Tenho muito orgulho de cada momento que ele me agradeceu por tê-lo chamado pro bar, como se eu tivesse proposto algo tão especial. No fim, foi mesmo. Não só pra ele, mas por ele!

Ontem torci pra Holanda de coração, mas não deu. A boa notícia é que o Ben foi visto – e como não seria? – no meio da multidão e saiu na TV, sites e até comentaram dele na narração do jogo. Ele não queria ser famoso. Só queria espalhar sua mensagem o máximo possível e conseguiu. Que orgulho!

Pra nossa sorte, deixo apenas um recado: a Laranja ainda vai viajar muito por aí. ; )
Pra minha, deixo de torcer pela Copa pra torcer que um dia a gente se reencontre no meio do caminho!

2 replies to “A Laranja Mecânica – Parte II

  1. Esse blog é demais!
    Leio sempre, são histórias de aquecer o coração!
    Amei esse texto e foi muito bom poder “conhecer” o Ben e a Laranja Mecânica através das fotos no site!
    Obrigada por me trazer um sorriso no rosto a cada nova pessoa.

    1. Que felicidade esse comentário, fico MUITO feliz de saber! Mesmo! : )
      Foi muito bom viver essa história e, mais ainda, poder compartilhar.
      Obrigada pelo carinho e mande a sua história quando quiser, vou adorar!
      Beijos!

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