O Garçom

Quem conta: julianamachado
Conta mais: era apenas um almoço que virou uma lição.

Certa vez fui almoçar com um amigo que não via há muito tempo. Para “comemorar” ter dado certo depois de tanto marcar e desmarcar, resolvemos ir a um restaurante novo, que nenhum dos dois conhecia.

Apesar de ficar em um shopping, o lugar tinha salão próprio, longe do tumulto da praça de alimentação, a comida não era barata, mas era realmente boa. O garçom que estava atendendo a nossa mesa era bom, nos serviu bem, foi atencioso, mas não tinha nada de extraordinário, nada que o fizesse memorável, nada que o fizesse uma temporary person. Nada até ele recolher nossos pratos.

Quando ele perguntou se tínhamos acabado, respondemos que sim, que estávamos bem satisfeitos, que ele podia retirar tudo e continuamos conversando. Ele começou a fazer aquela pilha de travessas, talheres e pratos que todo garçom faz – e que ele mesmo deve fazer 100 vezes por dia – e, quando estava quase acabando, desequilibrou e deixou a bandeja virar em cima de mim.

Nesse dia eu estava com uma camisa branca – toda branca, nova, primeiro uso – e a caminho de uma entrevista de emprego. Eu tinha almoçado um filé à parmegiana e meu prato estava por cima. Quando a bandeja virou, ele encaixou certinho em cima da minha barriga, deixando uma marca redonda e alaranjada de molho de tomate na minha camisa.
Foi inevitável, falei um longo e sonoro (mas baixinho) palavrão, sílaba por sílaba.

O garçom, de uns 30 anos, ficou instantaneamente pálido, mudo e trêmulo. Ele não teve expediente nem para tirar os pratos de cima de mim. Acho que meu palavrão abalou um pouco.
– Calma, moço. Acontece. Chama outro garçom, pede outra bandeja.

Eu estava calma, só tomei um susto com mil coisas caindo em mim de repente. Ele não respondia nada. Peguei um guardanapo e tirei o excesso de molho de tomate. Juntei as coisas do chão, coloquei em cima da mesa.
– Moço, é sério. Se acalma! Foi um acidente! Eu tenho certeza que você não fez de propósito… ou será que você tramou contra mim, hein, seu danado?
Ele riu, aliviado. Parecia que a minha pergunta tinha descongelado o homem e ele, finalmente, conseguiu falar. E aí, falou desenfreado:
– Nossa, moça! Me desculpa! Que vergonha, me desculpa! Foi sem querer sim, claro! Meu Deus do céu, olha a sua roupa! Você quer um pano com detergente? Eu pego na cozinha, você quer? Nossa, moça, meu Deus…

Apesar da boa vontade dele, detergente só ia piorar a situação. Eu agradeci e falei discretamente pra ele levar logo as coisas pra cozinha pra abafar a confusão. As pessoas estavam começando a olhar, comentar e deixá-lo ainda mais nervoso.

Quando ele voltou, disse que ia pedir pro gerente liberar nosso almoço e essa era a única maneira dele se desculpar. Eu disse que não, de jeito nenhum, porque eu sabia que se a gente não pagasse, o valor da conta ia ser descontado do salário dele e não era justo. Foi um acidente e ponto.
– Moça, muito obrigado pela compreensão, viu? Se fosse qualquer outra madame dessas que vem aqui, eu estava ferrado. Elas não perdoam, não! Eu ia perder meu emprego! Eu não posso perder meu emprego, eu tenho filho! Muito obrigado mesmo, moça. Você nem deu chilique, nem chamou o gerente… Nossa senhora, gosto nem de pensar eu sem emprego com menino pequeno em casa. Você não tem idéia de como você foi bacana!

O meu almoço valia o emprego dele. É claro que eu tinha idéia. Relevar determinadas coisas realmente muda o rumo da história.

Despedimos dele, pagamos a conta e fomos embora. No shopping mesmo comprei uma camiseta e fui pra entrevista. Nunca mais voltei no restaurante, mas das vezes que passei na porta, vi o garçom trabalhando. Tomara que ele ainda esteja feliz lá!

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