A Roommate

Quem conta: julianacasemiro
Conta mais: eu não sabia que ela seria minha primeira despedida.

Londres, abril de 2003.
Depois da experiência inesquecível na casa da Elaine, eu encontrei um lugar pra morar. Naquela época, era bem comum alugar um quarto em um hostel – seria como uma pensão, com a diferença que você divide o espaço com quem for aparecendo e muitos são viajantes.

No meu caso, eu fui a última a chegar. Que pânico! Saí do meu quarto limpinho e organizado, para um espaço onde eu precisa me preocupar onde pisar. Logo chegaram as responsáveis pelo caos: duas francesas super grossas e que tiraram sarro da minha pronúncia quando falei que era do Brasil. Ponto pra quem não pediu pra verificar o quarto antes de pagar!

A boa notícia é que elas foram embora naquele dia e foi possível acreditar em um mundo melhor – além de ver a cor do carpete, a bagunça era só delas! Ufa! Mas ainda tinha outra pessoa. Eram dois beliches e tinha sobrado uma cama superior pra mim. Lá fiquei, secando as lagriminhas e meus dramas. À noite, veio a surpresa: a minha companheira de beliche era uma boneca de porcelana australiana. Loira e linda, tinha a voz super doce e falou pouco. Perguntei seu nome:
– Sabe a música Truly, Madly, Deeply? É Truly, mas com um D, ao invés do L. Trudy.
Como não amar essa explicação?

Ela tinha um emprego legal e era um pouco mais velha que eu. Talvez 21. Estava morando lá temporariamente até achar uma casa que pudesse bancar. Nitidamente, ela odiava estar ali. No começo, foi difícil porque ela quase descontou esse sentimento em mim, mas logo viu que eu tentava melhorar o cenário de alguma forma.

Inclusive, teve uma noite que cheguei e ela estava vendo TV. Eu tinha tomado algum drink em algum lugar e cheguei mais “soltinha” no inglês. Falei horrores sem medo e foi quando quebramos a barreira. Tinha alguém ali abrindo espaço pra mim e fiquei super feliz. Daquele dia em diante, tudo ficou muito legal. Ela me ensinou várias gírias e me encorajou a falar mais.

Pouco tempo depois, chegou a hora dela ir embora. Meu coração se partiu, era um dos primeiros elos que formei com uma pessoa de outro país e não contava com essa despedida. Achava que isso só aconteceria quando eu fosse embora (meu grande erro da vida, até hoje). Deixei um recadinho, agradecendo por tudo. E não foi pouco. Ela me fez acreditar e perder a vergonha ao falar inglês, ela respeitou meu espaço quando eu estava meio down e me dava boa noite com a luz apagada, coisa que sempre fiz quando dividia o quarto com a minha irmã.

Enfim, ela foi alguém quando eu não tinha ninguém.
E eu sou Trudy, Madly, Deeply grata por isso!

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