No Segundo Andar

Quem conta: julianacasemiro
Conta mais: estava frio e tudo que eu queria era chegar em casa.

Londres, abril de 2003.
Eu tive um problema muscular no pé logo na primeira semana de Londres. A Elaine, como não poderia deixar de ser, se manteve como a pessoa mais doce do mundo e me ofereceu seu massageador de pés.

Estava vendo TV e com os pés imersos na sua banheirinha massageadora, quando a filha Linzi entra no quarto. Ela tinha o sotaque muito carregado e eu fritava o cérebro pra entender, mas naquele dia ela disse algo como:
– Vamos sair hoje? Terá uma festa wioahflekngaywaaelknmgwalegwen. Saímos de casa às 20h.
Como negar um convite pra minha primeira balada em Londres, em plena segunda-feira??? Minhas amigas iam pirar! Na hora, comecei a me arrumar.

Desci pronta, com um look iglu pra aguentar o frio. Ela estava super bonita e logo chegou sua melhor amiga vestida de bailarina. Sim, bailarina. Tutu, coque e sapatilha. Tudo rosa. Achei estranho, mas nem questionei. Nunca me senti tão boring, mas quem se importa comigo? Era óbvio que aquela noite seria incrível!

A jornada envolveu metrô e ônibus e as pessoas nem ligavam que tinha um ser rosa pink dos pés à cabeça com a gente. Eu passei a amar aquela cidade mais ainda ali.

Chegamos na festa e eu finalmente entendi o que a Linzi disse: wioahflekngaywaaelknmgwalegwen.
Tinham pessoas fantasiadas, tinham homens, mulheres, travestis, drag queens e tudo que envolva uma boa festa gay! Era tudo lindo e colorido e o ambiente era completamente rigoroso, passamos por detectores de metais e uma revista bem séria. O lugar era imenso, parecia um labirinto. Tudo decorado em neon e muita gente feliz dançando. Naquela época, eu (achava que) dançava Techno. Imagina chegar na pista tocando Beyoncé? Era tudo novidade.

Tímida, curti a noite do meu jeito e foi maravilhoso! As pessoas eram muito legais, puxavam assunto, total diferente do mundo que eu frequentava. E eu amei.

Na hora de pegar o casaco na chapelaria, eu ouvi um menino brasileiro falando com alguém. Eu não queria que ele desconfiasse que eu era do Brasil, afinal, eu estava com a bailarina – o grande hit da noite! Fomos embora super animadas e chegou nosso ônibus. Ainda era novidade andar no segundo andar do ônibus vermelho, então eu não poderia estar mais realizada. Até que senta um menino do meu lado… E era o brasileiro da fila.

Eu sorri e falei que era brasileira também. Na hora ele me deu um abraço e falou que tinha me visto:
– Te achei a menina mais linda da fila!
– Tinham poucas meninas na fila, né? Hahaha. Adorei sua jaqueta.
E ele contou sua história de vida: tinha 20 anos e foi pra Londres ser feliz. Seus pais aceitaram sua opção sexual, mas ele sofreu muitos preconceitos na cidade pequena que morava e optou por partir.
– Eu sentia que eu precisava viver, mas pouca gente sentia o mesmo que eu. Então eu vim e estou AMANDO isso aqui.

Ele estava com uma turma enorme e era um menino super bonito, educado e sincero. Infelizmente, o ponto dele descer chegou rápido e não deu tempo nem de trocar contatos, mas ele me ensinou algumas coisas que eu precisava saber. E sentir também.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
close-alt close collapse comment ellipsis expand gallery heart lock menu next pinned previous reply search share star