O Fazendeiro

Quem conta: julianamachado
Conta mais: o dia em que acessei o email de um estranho para ajudá-lo.

Estava saindo de férias com meu namorado e nós pegamos um daqueles ônibus que fazem transfer pro aeroporto. Acho que do Centro de Belo Horizonte até o aeroporto de Confins dá mais ou menos 1h, 1h30, dependendo do trânsito.

Logo que saímos do ponto de embarque, entramos em uma avenida que tava muito congestionada e ficamos parados um tempão. Na poltrona à nossa esquerda vi que tinha um senhor muito inquieto, falando sozinho, olhando pela janela fazendo cara de preocupado. Em um certo momento, ele olhou pra trás, viu que eu estava prestando atenção nele e disse, com um sotaque nordestino muito carregado e um certo conformismo na voz:
– Tá danado, acho que vou perder meu avião.

Puxei papo com ele e começamos a conversar. Ele me disse que era do Maranhão, que era fazendeiro e que tinha vindo a Minas a negócios. Dava pra ver que era uma pessoa muito simples, porém com uma vida confortável, e que não estava muito habituado a essas rotinas de aeroporto. Perguntei a que horas era o voo dele e ele me respondeu que o avião saía em mais ou menos uma hora e meia:
– Mas tem que chegar lá uma hora antes do voo, né? Não é isso? Então não vai dar tempo.
Mais uma vez fez cara de preocupação, mas a sensação que ele me passava era de que ele estava se sentindo muito perdido e sem saber o que fazer caso ele perdesse o voo.

– O senhor já fez o check-in?
Ele me olhou com uma cara de espanto, quase querendo dizer “claro que não, minha filha; eu nem cheguei no aeroporto” e respondeu um “não” seco.
– O senhor está com muita mala, tem coisa pra despachar?
Ele respondeu que não, que só tinha a pasta que estava com ele.
– Então porque o senhor não faz o check-in de uma vez pelo celular? O senhor tem celular com internet? Aí é só chegar lá, ir direito pro embarque e mostrar o código do cartão no celular. Mas tem que ser rápido, acho que precisa ser no mínimo 1h antes do voo.

Nessa hora, a expressão de esperança pela possibilidade de não perder mais o voo iluminou a cara dele, mas rapidinho deu lugar a um ar de estar confuso:
– Tem jeito de fazer isso pelo computador?
– Tem, sim. Aliás, tem se o senhor tiver um modem aí ou conseguir usar o celular como roteador, porque acho que o wi-fi do ônibus não está funcionando.
Eu certamente estava falando grego pra ele.
– Hmm… Você pode fazer isso pra mim?
– Uai, posso, claro. Mas é sério, a gente tem que fazer isso rápido.

Ele me entregou o notebook e disse:
– Faz o que você quiser aí! Só não deixa eu perder meu avião!
Eu comecei a rir e pedi calma.

– Vou entrar no site aqui, mas você tem que colocar seu usuário e sua senha, tá?
– Mas eu não sei de cor…
– Isso deve estar no seu e-mail, no e-mail de confirmação do seu cadastro pra comprar.
– Então entra no meu e-mail aí….
– Não, moço! Tá doido? Você entra!
E passei o notebook pra ele. Ele recusou, me empurrou de volta:
– Por favor, menina. Estou nervoso.

Na margem do ticket do ônibus, ele escreveu o e-mail e a senha dele e me entregou. Nessa hora, olhei pro meu namorado com um “Oi???” estampado na minha cara.
Realmente, a gente tinha que ser rápido, então lá fui eu acessar o e-mail de um fazendeiro rico perdido na minha cidade no meio de uma viagem de negócios. Fiz o check-in, expliquei pra ele que ele podia acessar o e-mail do celular e mostrar o bilhete, mas que se desse tempo era preferível ir ao balcão imprimir o cartão de embarque pra ele não ter problemas, já que nós não estaríamos no mesmo voo que ele pra ajudar, caso precisasse. Ele agradeceu muito. Muito mesmo.

Com tudo resolvido, eu precisava me desvencilhar daquelas senhas. Vai que dá alguma merda em alguma coisa desse homem, né? Conta do banco, cartão de crédito, os bois dele, sei lá. Tava em pânico só de imaginar.

– Moço, quando chegar em casa, troca essa senha, tá? A do seu email! Eu sou ruim de memória (mentira, sou ótima), mas mesmo assim, só pra garantir que se qualquer coisa acontecer com o senhor, eu não tenho nada a ver com isso!

Ele deu uma gargalhada muito alta, bateu a mão na perna, deu aquele estalo na coxa.
– Menina, não se preocupe. Olhe pra você! Você tem cara de gente confiável. Eu consigo sentir isso no jeito que você fala e no jeito que você ri.
Gostei dele ter me enxergado assim, eu realmente só queria ajudar.

O alívio que ele estava sentindo fez com que ele se acalmasse e fosse tranquilo e em silêncio até o aeroporto. Chegando lá, ele se levantou rápido, me agradeceu mais uma vez e foi um dos primeiros a descer do ônibus. E eu simplesmente esqueci a senha, o email e até o nome dele depois de um tempo, acho que de tão tensa que eu fiquei.

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