O Ticket

Quem conta: julianacasemiro
Conta mais: pequenas gestos são enormes.

Londres, outubro de 2012.
Consegui uma folga no trabalho e fiz uma loucurinha de ir pra Londres por 5 dias. Estava muito emocionada quando aterrissei lá, haja coração. Mala na mão e sigo pro metrô. Zero trocados na carteira, parto para as máquinas de tickets com o cartão e, estranhamente, uma tinha uma fila de 8 pessoas enquanto a outra estava vazia. Ninguém se manifestava em mudar e fui na máquina vazia. Na hora, se aproxima de mim um homem mais velho (talvez uns 40?) e o diálogo começa com uma certa amargura:
– Você vai comprar um ticket? Pega o meu. Tenho um sobrando, minha companheira me abandonou e não levou o ticket com ela.
– Desculpa, não entendi. Você está me dando um ticket?
– Sim, é seu.
E, praticamente, colocou na minha mão. Olhei pro ticket e realmente estava vigente, valia o dia todo e ele mostrou que tinha dois mesmo, sempre com uma cara meio triste. Quando absorvi o momento e ia agradecer, cadê o moço? Não deu tempo de questionar se eu pagaria ou não. Sorri pra mim mesma e segui o trajeto.

Na plataforma, que não é pequena, escolhi um lugar estratégico pra entrar com a mala e, quando vejo, lá estava ele de novo. Finalmente, agradeci o ticket e, antes de eu terminar a frase, ele me interrompe:
– Por favor, como eu faço pra chegar daqui até Paddington?
Aponto no mapa da linha do metrô onde ele faria baldeação e comento que tem o Heathrow Express, trem direto do aeroporto para a estação que ele queria. Ele não sabia e ficou mais pra baixo ainda. Incentivei a voltar e tentar, mas ele não se manifestou. O trem chegou e, quando eu vi, já estava lá dentro.

Entrei toda confusa, bolsa, mala e eu. Ufa, sentei. Na frente dele. Parecia estranho, mas eu pude sentir rapidinho que não era.
Olhei e dei um sorriso, mas faltou dizer uma coisinha:
– Desculpa, mas eu ia comprar o ticket com cartão porque acabei de chegar e estou sem trocado…
– Não se preocupe, estava sobrando mesmo. Nos deram a informação errada e comprei um ticket que não precisava. Minha parceira foi viajar e eu fiquei aqui com um de sobra. Decidi que ia dar pra primeira pessoa que aparecesse, mas ninguém me olhava lá. Muita gente, né?
– É, Londres é uma loucura.
– Tudo bem. Mas estou gostando disso. Pena que já estou indo embora amanhã para a Irlanda.
– Mas de onde você é?
– Argentina.
Aproveitei a deixa pra arrasar no portuñol:
– Soy brasileña!
E ele abriu um sorriso aliviado, apesar de seu inglês ser muito bom. Começou aquele papo de onde cada um é, ele contou que conhece bem o Brasil e estudou português no colégio. Por motivos óbvios, o papo seguiu em português. E ele perguntou se eu morava em Londres:
– Morava… mas vim passar 5 dias só.
Pronto! Caiu o balde de água fria e entendi que era muito pouco tempo, fiquei transtornada e ele sacou. Mudou de assunto na hora, contando dos dias dele lá e eu, que adoro saber a ótica das pessoas sobre a cidade, perguntei o que ele mais curtiu. A resposta me deixou até nervosa, porque ele viu pouquíssima coisa.

Era outubro com sol, eu estava gritando por dentro e ele ainda estava pra baixo. Logo perguntei o que ele ia fazer em Paddington.
– Vou voltar para o hotel e mais tarde jantar alguma coisa.
– Mas são 4 da tarde! Hoje é um bom dia para ir na beira do rio. Você foi na beira do rio, né?
– Fui, mas não andamos muito.
Eis que minha mãe “baixou” em mim:
– Então você vai andar hoje!
Ele sorriu e começou a abrir o mapa. O metrô foi ficando cheio, então eu fui narrando as coisas para ele fazer. O inglês sentado ao lado dele foi caçando as palavras e apontando no mapa quando ele demorava pra achar. Essa gentileza gratuita me faz feliz.
– E depois?
Fiz o itinerário até a hora do jantar. Achei sincero ele não contestar. Apenas sorria. Quando eu contei que íamos descer na mesma estação, ele adorou. Até que o metrô encheu e nem nos enxergávamos mais. Tudo bem. Eu estava precisando daqueles minutos pra entender o que estava acontecendo. Como eu amo esse lugar…

– É a próxima estação.
Ele levantou rapidíssimo e animado. Veio direto pegar minha mala. Uma coisa meio de pai, foi legal.
Sobe elevador, desce escada. Ufa, chegamos na outra linha do metrô. Dei as coordenadas finais:
– Eu vou pro Norte e você pro Sul, tá? São poucas estações, presta atenção.
– Claro. Olha, eu sei que você acabou de chegar, mas eu poderia te pagar um café?
– Me desculpa, mas tenho pessoas me esperando em casa… Obrigada! Pelo convite e pelo ticket. Eu não tenho dinheiro mesmo.
– Eu é que agradeço pelas dicas e a conversa. Valeram mais que qualquer dinheiro!
Todo mundo sorriu e ele veio me dar um abraço e um beijo, sempre com respeito, agradecendo de novo.
– Tanta conversa e não sei seu nome…
– Verdade! Juliana e o seu?
– Alfredo.
– Meu trem chegou. Prazer, Alfredo. Aproveita Londres até o fim!

Ele me olhou garantindo que isso ia acontecer. Londres (re)começou ali pra mim. E, espero, que pra ele também!

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