O Vizinho Indiano

Quem conta: ariádne
Conta mais: um sorriso fala todas as línguas.

Em 2007 meu marido recebeu uma proposta pra trabalhar na Índia e eu fui junto me aventurar. Tivemos a sorte de ser recebidos em Goa, um pequeno estado litorâneo e atípico na Índia, com mata vasta e belas praias. Tirando o tom escuro do mar Arábico e a forte cultura local, tem grande semelhança com a Bahia e também foi colônia portuguesa. É paraíso de férias de turistas de todo o mundo e recebe especialmente europeus, russos e israelenses.

Pela forte movimentação na temporada, buscamos uma casa que fosse um pouco mais afastada da costa, mais perto da mata e consequentemente dos tantos campos de arroz que circundam o sul do país. Perto da nossa simples casa de dois cômodos (sem sequer laje), tinha apenas uma outra a uns 50 metros, que morava uma família bem fechada ao nosso contato. Do outro lado, tinha apenas um campo vasto que pra mim, inicialmente, era só um monte de mato. Nossa “rua” sequer tinha nome. Era uma via de terra no meio de um coqueiral.

Tínhamos uma varanda bem espaçosa, que nos dava um bela visão do campo em 180 graus e passamos a ver passar ali diariamente uma única pessoa, vezes de bicicleta, vezes andando sozinha, vezes carregando um boi. Essa pessoa era um homem por volta dos seus 50 anos, bem magro, baixo e franzino, típico indiano. Com o rosto marcado pelo tempo e pelo sol, ele não hesitava em sorrir 100% das vezes que passava por nós e nós, inevitavelmente, sorríamos de volta. Mas não era um sorriso tímido. Era um sorriso entregue, desses com todos os dentes a mostra.

Logo percebemos que ele era o responsável por cuidar da plantação vizinha e nosso contato passou a ser diário, porém, apenas da forma que nos cabia – sorrindo. Nosso vizinho falava a língua típica de Goa, o Konkani, e um pouco de Hindi, a língua oficial do país. Nós ainda nos comunicávamos só com inglês, segunda língua oficial, desconhecida por ele. Recém chegados, tentamos algumas vezes perguntar seu nome em vão. Ele sorria, falava algo que não entendíamos, balançava a cabeça estilo pêndulo, consentia ou acenava um tchau, no máximo.

Nosso contato diário e não intencional com o agricultor nos fez questionar a vida. Primeiro, ao observá-lo trabalhando, sempre de acordo com as estações do ano. Havia a época em que não parava um só minuto, colhendo, descascando, deixando secar. Em outras só precisava levar os bois pra pastar. Parecia sempre muito concentrado no que fazia e tinha seus bois e vacas favoritos, que não lhes pertenciam mas que os orgulhavam por tê-los criado. Achávamos realmente especial o fato dele passar quase todo seu tempo sozinho entre os bois, na plantação, ignorar diversos fatos sobre o universo, a física e o poder , não se jogar no mundo e nas possibilidades como estávamos fazendo naquele momento, mas ainda assim, estar sorrindo todas as vezes em que o víamos. Eu quase não lembro do rosto dele “fechado”.

Após alguns meses de Índia, decidi fazer aula de hindi. Aprendi a ler e escrever e logo que soube pronunciar as primeiras frases fui finalmente conversar com nosso querido e inspirador vizinho. Ele me disse que seu nome era Arjun, quase sem ar de surpresa após eu ter perguntado de forma que ele entendia. Depois daquele dia ele passou a chamar meu marido de Bhai (irmão) e a mim de Bhahai (cunhada) e a cada colheita de pimenta, espinafre, arroz ou temperos, Arjun aparecia em casa pra nos dar um pouco. Essa relação durou os 18 meses que vivemos naquela casa no meio do mato e, mesmo sendo através de apenas umas 20 palavras, Arjun foi dos indianos que mais nos ensinou. Principalmente, a sorrir.

7 replies to “O Vizinho Indiano

  1. Ari Adne, me lembro de vc muito pequena, assumindo responsabilidades…o sorriso sempre esteve aí, porque quando vc sorria, vc o fazia com alma. Essa alma linda que vc traduzir de tantas formas. Que orgulho eu tenho de ter conhecido você, minha menina…beijos da Tia Rute.

  2. Que lindo texto, Ariádine! Como é simples e possível “se ver com o coração”! Que linda lição aprendemos com Arjun, mesmo sem o conhece-lo, mas pela sua descrição. Ele ficou para sempre, com você e o Rico. Maravilha!!!!!!!!!

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