O Senhorzinho Bravo

Quem conta: julianacasemiro
Conta mais: eu imaginei como ele seria antes de a gente se conhecer (e me enganei).

Abril de 2003.
Depois do episódio que vivi no voo indo para Londres, cheguei na cidade mais leve. Segui as coordenadas que a Elaine, a mãe da casa de família que eu ia ficar na primeira semana, me deu por telefone. Ela tinha a voz da Sharon Osbourne (mulher do Ozzy). Gentil, se ofereceu de me buscar no metrô e foi como aconteceu.

Chegou exatamente a Sharon, mas um pouco mais gordinha. Me deu um abraço apertado e não parava de sorrir. Adorei e fui logo entrando no carro, estava frio. Entrei do lado errado, óbvio. As duas riram.

A casa era bem inglesinha. Coisa de filme, fiquei encantada. Por dentro, uma casa inteligente, aconchegante e quentinha. Ela mostrou tudo e só não saímos no jardim:
– Meu marido é marceneiro e todas as coisas dele estão lá.
Senti um ar de proibição e minha mente wannabe Amélie Poulain já me levou para um cenário onde o marido era um senhorzinho bravo, de macacão, baixinho, gordinho e bem britânico (ou frio, como dizem as más línguas).

Meu quarto era todo bonitinho e passei a tarde arrumando as coisas. Em algum momento ela apareceu perguntando sobre minhas restrições alimentares. Educada e besta, respondi que comia de tudo. Maior mentira! Ela estava saindo do quarto e eu assumi:
– Peixe!
– Peixe??? Ah, ok. Meu marido cozinha sempre, mas não somos obrigados a comer.
Lembrei do “senhorzinho bravo” e já senti o drama.

Mais tarde ela voltou e me convidou para descer:
– O jantar está pronto. Meu marido e minha filha estão aí e quero que você os conheça também.
Desci a escada fazendo o sinal da cruz – sim, sou patética.
Virei em direção à cozinha e tive a melhor surpresa – ele tinha um sorrisão e astral ótimo (além de ser igual ao Michael Jordan). E começou:
– Essa é a sua casa?
– Sim…?
– Sim, essa é a sua casa. E eu vou fazer de tudo para que você se sinta em casa.
PÁ! Toma essa, Amélie Poulain.

A filha, Linzi, era uma mistura linda dos dois e super falante! No fim, jantamos apenas eu e a Elaine e ela não me deixou ajudar com a louça.

O dia seguinte era domingo, então todos estariam em casa para o café da manhã. O papo era ótimo, a família era bem unida. Tudo ia bem até que a Elaine foi buscar o que faltava pro café: uma travessa imensa de… peixe! Com tomates e cebola. Sim, peixe com tomates e cebola para o café da manhã.

O Wayne comentou que já sabia da minha restrição e eu respondi:
– Desculpa, mas realmente não como nada do mar.
– Não tem problema. Está vendo essa bandeira na sua blusa (moletom clássico do Epcot Center)? Eu sou da Jamaica e comer peixe em todas as refeições é comum na minha cultura.
Eles começaram a se servir, colocaram tudo em uma torrada e tomaram com café preto.
– Você quer passar algo no seu pão? Puro vai ficar sem graça.
Naquele momento, eu me senti em casa:
– Você tem manteiga?

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