A Montanha

Quem conta: analeitão & bernardocaron
Conta mais: estávamos na China desolados por uma sequência de eventos difíceis.

Não sabemos contar quantas vezes ouvimos chineses oferecendo ajuda durante as duas primeiras semanas na China. No começo é ótimo, até você descobrir que não é.

Tínhamos acabado de chegar na cidade de Wulingyuan. Deixamos nossas coisas no hotel e saímos pela cidade em busca de um restaurante. Optamos por entrar em um clássico chinês “hot pot”. A garçonete foi super solícita e, provavelmente, deve ter nos explicado os pratos. Como a gente não entende mandarim, achamos que o caminho mais fácil era apontar em um painel de fotos qual era a nossa escolha: algo que poderia ser carne de vaca ou de porco. A moça balançou a cabeça, anotou algo e foi para a cozinha.

Logo chegou o prato, mas com elementos que destoavam da foto. Mentira, não tinha nada a ver com o que pedimos mesmo. Em um espírito aventureiro achamos que valia tentar desbravar aquilo e foi quando veio a surpresa: surgiu um pé de galinha cozido no meio. Nojo ou desespero? Os dois. A verdade é que ao pinçar uma cabeça de galinha, confirmamos que não era o nosso pedido e a briga começou: o Bernardo traduzia pelo celular e a chinesa retrucava em mandarim. A discussão teve suas variáveis: galinha versus faisão, erro versus má fé, com ou sem pimentão etc. Esse último dilema deu que trouxeram da cozinha um pimentão cru. Trocar o pedido, nem pensar. Nitidamente, era o prato mais caro do local. Depois de um difícil diálogo, deixamos parte do dinheiro que exigiam em cima da mesa e saímos andando, com fome.

Passamos num mercadinho e fomos pro hotel porque o dia seguinte seria longo! Logo cedo, pegamos um taxi até o portão do Parque Florestal Nacional de Zhangjiajie. O taxista ignorou o pedido do Bernardo de seguir com o protocolo do taxímetro e, espertão, cobrou 4 vezes o valor real. Que não foi pago dessa vez.

A manhã foi intensa, as trilhas estavam abarrotadas de turistas chineses com educação “diferenciada” e eram milhares de degraus para todos os lados, com ofertas de tudo: mapas, ajuda ou até de ser carregado pelas trilhas. Exaustos, preferimos seguir para outra parte do parque pela tarde, com passeio de barco, templos e cachoeiras. Esse era o plano, se não tivéssemos comprado um ticket bem caro, acreditando que valeria para todos os pedaços do parque. Comprar outro ticket caro estava fora de questão, então nos entregamos à guia desolados e exaustos pela sequência de eventos. Enfiamos a cara no mapa procurando alguma saída, algum sinal.

– Posso ajudar?
Era mais um chinês. Desviamos o olhar, mas ele insistiu.
– Vocês estão perdidos?
Sentou ao nosso lado e adentrou no nosso mapa. Explicamos sucintamente que não esperávamos mais tormentas. Ele nos contou que estava viajando há mais de 4000km de moto com um amigo pela China. Muito calmo e zen nos sugeriu que insistíssemos nesse passeio, mesmo sendo caro. Quase indo embora, voltou e pediu uma foto com a gente – o que é comum por lá. Agradeceu e se despediu, reafirmando que não nos arrependeríamos de entrar no parque. Subiu em sua moto e partiu. E nós resolvemos dar uma chance…

Fomos recebidos por mais uma escadaria que rasgava uma rocha gigantesca. Cruzamos com um único turista chinês e só então percebemos que estávamos sozinhos na China, pela primeira vez. Enquanto subíamos, o céu começou a crescer com um incrível e acalentador por do sol. Ao nos aproximarmos do fim da floresta, ascendeu uma grande montanha à nossa frente, ao lado de uma imensa cachoeira. Saímos do parque com o último fiapo de luz do sol e uma das melhores experiências dessa vida.

Não podíamos evitar de lembrar do motoqueiro viajante que insistiu na nossa visita.
Ele mudou a nossa viagem e a China mudou com ele também.
Xièxie (obrigado)!

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